Voo cancelado: o que fazer e quais são seus direitos
Por Dra. Fabiana Santos · Advogada · OAB/RJ 225.507

Se o seu voo foi cancelado, a companhia aérea é obrigada a oferecer três opções — reacomodação em outro voo, reembolso integral em até 7 dias ou transporte por outro meio — e a escolha é sua. Enquanto você espera, ela também deve dar assistência gratuita: alimentação a partir de 2 horas e hospedagem a partir de 4 horas (a comunicação a partir de 1 hora deixa de ser obrigatória em 26/10/2026, com a Resolução ANAC nº 813/2026). Essas regras estão na Resolução nº 400/2016 da ANAC e valem mesmo quando o cancelamento acontece por mau tempo.
Abaixo, explico cada direito, o passo a passo para não sair no prejuízo e quando o cancelamento pode gerar indenização.
O que a lei diz sobre cancelamento de voo
Dois conjuntos de regras protegem o passageiro:
- Resolução 400/2016 da ANAC, que define as obrigações das companhias em voos domésticos e em boa parte dos internacionais que saem do Brasil.
- Código de Defesa do Consumidor, que trata o passageiro como consumidor e a companhia como fornecedora de serviço. Pelo art. 14, a empresa responde pelos danos causados por falha no serviço.
O motivo do cancelamento não tira os seus direitos básicos. Mau tempo, problema técnico ou reestruturação da malha não liberam a empresa de oferecer as opções e a assistência.
Quais são os seus direitos quando o voo é cancelado
Quando o voo é cancelado — ou atrasa mais de 4 horas —, a companhia deve apresentar estas opções:
| Opção | O que significa |
|---|---|
| Reacomodação | Embarcar em outro voo, da mesma empresa ou de outra, na primeira oportunidade ou em data de sua escolha, sem pagar nada a mais |
| Reembolso integral | Devolução de tudo o que foi pago, incluindo taxas, em até 7 dias |
| Outra modalidade de transporte | Concluir a viagem de ônibus, van ou carro, quando fizer sentido para o trajeto |
Você não é obrigado a aceitar a primeira proposta. Se o atendente disser que "só tem voo daqui a dois dias", lembre que a reacomodação pode ser em outra companhia.
Assistência material no aeroporto
A assistência aumenta conforme o tempo de espera:
- A partir de 1 hora: comunicação (internet, telefone) — só até 25/10/2026; a Resolução ANAC nº 813/2026 retira essa obrigação a partir de 26/10/2026.
- A partir de 2 horas: alimentação (voucher ou refeição).
- A partir de 4 horas: hospedagem, se houver pernoite, e transporte de ida e volta ao hotel. Se você estiver na sua cidade, a empresa pode oferecer só o transporte até sua casa.
Se a companhia não oferecer e você pagar do próprio bolso, guarde as notas: esses gastos podem ser cobrados depois como dano material.
A regra das 72 horas
Mudanças programadas de horário ou itinerário precisam ser avisadas com pelo menos 72 horas de antecedência. Se o aviso vier em cima da hora, ou você só descobrir no aeroporto, valem todas as opções acima — e o transtorno costuma ser maior, o que pesa na avaliação de um eventual dano moral.
Passo a passo: o que fazer na prática
- Reclame na própria companhia (balcão, app ou SAC) e anote o número do protocolo.
- Peça por escrito o motivo do cancelamento. A empresa é obrigada a informar.
- Escolha e formalize a opção que prefere: reacomodação, reembolso ou outro transporte.
- Exija a assistência material e guarde todos os comprovantes de gastos (hotel, transporte, alimentação, nova passagem).
- Reúna provas: cartão de embarque, e-mails, prints do app, fotos do painel e documentos do compromisso perdido.
- Se não resolver, registre reclamação no consumidor.gov.br e na ANAC (telefone 163).
Tenho direito a indenização por danos morais?
Depende do caso. Desde a Lei 14.034/2020, o art. 251-A do Código Brasileiro de Aeronáutica diz que a indenização por dano extrapatrimonial em transporte aéreo depende da demonstração do prejuízo. Na prática, o simples cancelamento nem sempre gera indenização, mas a Justiça costuma reconhecê-la quando o passageiro:
- perde um compromisso importante (trabalho, prova, casamento, conexão internacional);
- passa a noite no aeroporto sem assistência;
- fica horas sem informação ou ajuda da empresa;
- chega ao destino quando o motivo da viagem já não existe.
Os valores variam conforme a gravidade e as provas de cada situação — não existe um número fixo. Já os danos materiais (gastos comprovados que a empresa deveria ter coberto) costumam ser reconhecidos quando há comprovante e relação direta com o problema no voo.
Quando vale procurar uma advogada
Vale buscar orientação quando a companhia negou a reacomodação ou o reembolso, não pagou no prazo, deixou você sem assistência ou quando o cancelamento causou um prejuízo concreto.
Casos de até 20 salários mínimos podem ir ao Juizado Especial Cível, onde não há custas judiciais no primeiro grau (Lei 9.099/95, art. 54) e é possível entrar até sem advogado. Ainda assim, a orientação técnica ajuda a provar o prejuízo exigido pelo art. 251-A e a calcular corretamente o que pedir — e o advogado se torna obrigatório se for preciso recorrer.
Voo cancelado é transtorno, mas não precisa virar prejuízo: documente tudo desde o primeiro momento.
Perguntas frequentes
A companhia aérea pode cancelar o voo por mau tempo e não fazer nada?
Não. Mesmo quando o motivo é mau tempo ou fechamento do aeroporto, a empresa continua obrigada a oferecer reacomodação, reembolso ou outra forma de transporte, e a prestar assistência material (alimentação e hospedagem, conforme o tempo de espera). O motivo pesa, isso sim, na discussão sobre indenização por danos morais.
Em quanto tempo a companhia tem que devolver o dinheiro?
Pela Resolução 400 da ANAC, o reembolso deve ser feito em até 7 dias contados do pedido, pelo mesmo meio de pagamento usado na compra. No cartão de crédito, o estorno pode aparecer em uma das faturas seguintes.
Voo cancelado sempre dá direito a indenização por danos morais?
Não. Desde 2020, o art. 251-A do Código Brasileiro de Aeronáutica exige que o passageiro demonstre o prejuízo sofrido. Por isso, guardar provas do que aconteceu (compromisso perdido, noite no aeroporto, falta de assistência) faz toda a diferença.
Preciso de advogado para processar a companhia aérea?
No Juizado Especial Cível, causas de até 20 salários mínimos podem ser propostas sem advogado. Acima disso, ou se for preciso recorrer da sentença, o advogado é obrigatório. Mesmo nos casos menores, a orientação ajuda a calcular corretamente os danos materiais e a reunir as provas certas.
Qual o prazo para entrar na Justiça?
Em voos nacionais, a regra geral do Código de Defesa do Consumidor é de 5 anos (art. 27). Em voos internacionais, o STF entende que valem as Convenções de Varsóvia e Montreal para danos materiais, com prazo de 2 anos. Na dúvida, não deixe para depois.
Fontes e legislação
- ANAC — Resolução nº 400/2016 (condições gerais de transporte aéreo), texto compilado
- ANAC — Resolução nº 813/2026 (altera a Resolução 400; vigência em 26/10/2026)
- ANAC — Direitos dos passageiros: atraso, cancelamento e preterição
- Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/1990)
- Código Brasileiro de Aeronáutica (Lei nº 7.565/1986), art. 251-A
- Lei nº 9.099/1995 (Juizados Especiais)
Este conteúdo é informativo e não substitui a análise individual do seu caso.

Escrito e revisado por
Dra. Fabiana Santos · Advogada · OAB/RJ 225.507
Especialista em Direito do Consumidor. Atua também com bloqueio de contas em plataformas digitais e BPC/LOAS. Atendimento 100% online.
Atualizado em